Fluxo de caixa de 90 dias: enxergar o aperto antes que ele chegue

Empresa não quebra por falta de lucro. Quebra por falta de caixa. Dá para fechar o ano com resultado positivo na DRE e mesmo assim não ter dinheiro para pagar a folha em março — porque lucro e caixa acontecem em momentos diferentes.

A projeção de fluxo de caixa de 90 dias existe para transformar o aperto em algo previsto, e não em surpresa. Noventa dias é o horizonte em que ainda há tempo de agir: negociar prazo, antecipar recebível, adiar investimento, cortar despesa, buscar crédito com calma em vez de pegar o primeiro que aparecer.

Por que lucro e caixa não coincidem

Três descompassos explicam quase tudo:

  • Prazo de recebimento. Você vende em janeiro, reconhece a receita em janeiro, e recebe em três parcelas até abril. O lucro é de janeiro; o dinheiro, não.
  • Estoque. Comprar mercadoria consome caixa hoje e só vira custo na DRE quando a venda acontece.
  • Itens que não passam pelo resultado. Amortização de empréstimo, distribuição de lucros, compra de equipamento e recolhimento de tributos parcelados saem do caixa sem aparecer como despesa do período.

É por isso que o extrato bancário nunca bate com o lucro — e por que os dois relatórios precisam existir lado a lado.

Como montar a projeção

A projeção parte do saldo de caixa de hoje e avança semana a semana. Em cada semana entram:

Entradas: recebimentos já contratados (carteira de duplicatas, parcelas de cartão com a data real do repasse, contratos recorrentes), previsão de vendas novas com a probabilidade e o prazo médio de conversão do funil, e entradas não operacionais como empréstimos ou aporte.

Saídas: folha, encargos e 13º provisionado; fornecedores com vencimento; tributos, incluindo parcelamentos; aluguel, energia, software e demais fixos; parcelas de financiamento; investimentos já comprometidos; e a retirada dos sócios.

O resultado é uma linha de saldo acumulado que mostra, com data, em qual semana o caixa fica negativo — se ficar.

Os quatro números que a projeção revela

  1. O dia do aperto. Não “o mês que vem está apertado”, mas “na semana do dia 12 faltam R$ 47 mil”.
  2. O ciclo financeiro. Prazo médio de estoque somado ao prazo médio de recebimento, menos o prazo médio de pagamento a fornecedores. É quantos dias a empresa financia a própria operação — e cada dia a menos devolve dinheiro ao caixa.
  3. O caixa mínimo operacional. A reserva necessária para sustentar a operação em um mês ruim. Sem ela, qualquer atraso de cliente vira emergência.
  4. O custo do crescimento. Crescer consome caixa: mais estoque, mais folha, mais prazo concedido. Empresa que cresce rápido sem projeção é a que mais toma crédito caro.

Cenários, não adivinhação

Uma projeção com um único cenário é uma aposta. Trabalhe com três: realista, com a média histórica de conversão e de inadimplência; pessimista, com queda de vendas e atraso maior de recebimento; e otimista, para saber se a empresa consegue sustentar o crescimento que deseja.

O cenário pessimista é o mais útil dos três. Ele responde à pergunta que tira o sono: quanto tempo a empresa aguenta se as vendas caírem e o cliente atrasar?

O que fazer quando o vermelho aparece

Descoberto com antecedência, o aperto tem soluções baratas — que desaparecem quando ele vira urgência:

  • Renegociar prazo com fornecedores antes do vencimento, não depois.
  • Cobrar a carteira em atraso de forma estruturada, começando pelos maiores valores.
  • Rever a política de parcelamento oferecida ao cliente.
  • Adiar investimento não essencial para depois da janela crítica.
  • Contratar crédito comparando taxas, com tempo para negociar — em vez de aceitar a primeira oferta na véspera.
  • Cortar despesa fixa que não devolve resultado, decisão que costuma levar de 30 a 60 dias para produzir efeito no caixa.

Disciplina semanal

A projeção precisa ser atualizada toda semana, comparando o previsto com o realizado. Esse confronto tem duas funções: corrigir a rota e calibrar as premissas. Se a inadimplência prevista era de 3% e a real é de 8%, a próxima projeção nasce mais confiável.

Vinte minutos por semana, com o mesmo modelo, valem mais do que qualquer sistema sofisticado usado uma vez por semestre.

Este conteúdo é informativo e não substitui a análise do seu caso concreto por um profissional.