Reforma tributária: o cronograma do IBS e da CBS e o que fazer agora

A reforma tributária do consumo deixou de ser assunto de futuro. Em 2026 ela já está na rotina de quem emite nota fiscal — e o cronograma até 2033 define investimentos, contratos e política de preço que estão sendo decididos agora.

Este texto organiza o que muda, quando muda e o que a empresa precisa fazer em cada etapa.

O que a reforma faz, em uma frase

Cinco tributos sobre consumo — PIS, COFINS, IPI, ICMS e ISS — são substituídos por dois, mais um terceiro de finalidade específica:

  • CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), federal, no lugar de PIS e COFINS.
  • IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), de estados e municípios, no lugar de ICMS e ISS.
  • Imposto Seletivo, sobre produtos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente.

Os dois principais seguem o modelo de IVA: crédito amplo sobre tudo o que a empresa adquire para a atividade, não cumulatividade plena e tributação no destino — onde o bem ou serviço é consumido, não onde o fornecedor está.

O cronograma

2026 — ano de teste

CBS e IBS aparecem com alíquotas simbólicas: 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, compensáveis com PIS e COFINS. Na prática, não há aumento de carga. O que existe é obrigação operacional: os campos de IBS e CBS passaram a ser preenchidos nos documentos fiscais eletrônicos ao longo do ano. Quem não ajustou sistema, cadastro de produtos e classificação fiscal está acumulando erro que vai aparecer depois.

2027 — a CBS entra de verdade

PIS e COFINS são extintos e a CBS passa a valer integralmente. O IPI é zerado, salvo para produtos que concorrem com a Zona Franca de Manaus. O Imposto Seletivo começa a incidir. É o ano em que a conta federal muda de forma efetiva — e em que empresas com muito crédito de insumo tendem a ganhar, enquanto empresas de serviço com custo concentrado em folha tendem a sentir aperto.

2029 a 2032 — a transição do IBS

ICMS e ISS vão sendo reduzidos proporcionalmente enquanto o IBS sobe: as alíquotas dos tributos antigos caem para 90% em 2029, 80% em 2030, 70% em 2031 e 60% em 2032. São quatro anos convivendo com dois sistemas ao mesmo tempo — o período de maior complexidade operacional de toda a reforma.

2033 — sistema pleno

ICMS e ISS deixam de existir. Restam CBS, IBS e Imposto Seletivo.

O que muda na prática para a sua empresa

Crédito amplo muda a lógica de compra

Hoje, boa parte do que a empresa gasta não gera crédito. No novo modelo, praticamente tudo o que é adquirido para a atividade gera. Isso favorece quem compra de fornecedor que destaca o imposto e desfavorece quem compra na informalidade ou de fornecedor que não gera crédito.

Tributação no destino redesenha a vantagem competitiva

Benefícios fiscais estaduais de origem — a base da chamada guerra fiscal — perdem sentido, porque o imposto passa a ser devido onde está o cliente. Empresa que se instalou em determinado estado por causa de incentivo precisa refazer a conta.

Serviços tendem a pagar mais; indústria e comércio, menos

É a consequência aritmética do crédito amplo: quem tem cadeia de insumos se credita muito, quem tem custo em folha se credita pouco. Setores específicos têm redutores previstos — por exemplo, redução de 30% para profissões regulamentadas e de 60% para áreas como saúde e educação —, mas a direção geral é essa.

O Simples Nacional continua existindo

A empresa do Simples pode permanecer no regime. Surge, porém, uma escolha nova: recolher IBS e CBS por fora do Simples para gerar crédito integral ao cliente. Para quem vende ao consumidor final, ficar no regime tende a ser melhor. Para quem vende B2B, a possibilidade de o cliente se creditar pode virar argumento comercial decisivo — e a conta precisa ser feita empresa por empresa.

O que fazer agora, sem esperar 2027

  1. Arrumar o cadastro fiscal. NCM, CFOP, CST e classificação de serviços corretos. O novo sistema não perdoa cadastro errado, e o ano de teste existe justamente para isso.
  2. Atualizar o sistema de emissão e conferir se os campos de IBS e CBS estão sendo gerados nas notas.
  3. Mapear os fornecedores e identificar quem gera crédito e quem não gera.
  4. Simular o impacto na sua operação com os percentuais previstos, para entender se a empresa ganha ou perde e em quanto.
  5. Revisar contratos de longo prazo. Contrato assinado hoje com preço fixo até 2028 precisa de cláusula que trate da mudança tributária.
  6. Rever a política de preço à luz do que o cliente passará a poder creditar.

Uma ressalva honesta

A alíquota de referência combinada de IBS e CBS ainda depende de regulamentação e de calibragem posterior; as estimativas discutidas giram em torno de 26,5%, mas o número definitivo será fixado ao longo da transição. Qualquer simulação feita hoje é cenário, não previsão. O que já é certo é o calendário — e é sobre ele que dá para se organizar.

Este conteúdo é informativo e não substitui a análise do seu caso concreto por um profissional. A regulamentação da reforma segue em construção: confirme as regras vigentes antes de decidir.